O experimento: por 30 dias, usar IA em toda tarefa em que ela caiba. Não para provar que funciona — para descobrir onde não funciona, que é a informação que ninguém publica.
O relato é organizado por semana, porque a curva importa mais que o resultado final.
Semana 1: tudo parece milagre
A primeira semana é enganosa. Tudo que você testa funciona melhor que o esperado, e a sensação é de que a produtividade dobrou.
Parte disso é real. Boa parte é o efeito da novidade: você está prestando atenção em tarefas que fazia no automático, e a atenção sozinha já melhora o resultado.
O que realmente ganhou tempo nesta semana: transcrição de reunião, primeira versão de qualquer texto, resumo de documento longo.
O que pareceu ganhar e não ganhou: pesquisa rápida que você já sabia fazer, e-mail curto que levaria dois minutos de qualquer jeito.
Semana 2: o abandono
É aqui que a maior parte do experimento morre para a maioria das pessoas, e vale entender por quê.
O atrito aparece. Abrir a ferramenta, escrever o contexto, revisar a saída — para tarefas pequenas, isso custa mais que fazer direto. Você começa a pular, e depois de três pulos o hábito não se forma.
A descoberta da semana: o ganho não é proporcional à frequência da tarefa, e sim ao tamanho dela. Tarefa de dois minutos raramente compensa. Tarefa de trinta compensa quase sempre.
O que sobreviveu: as tarefas grandes. O que caiu: quase tudo abaixo de cinco minutos.
Semana 3: a queda de qualidade que ninguém avisa
A terceira semana traz o problema desagradável.
Quando você usa para tudo, a produção fica uniforme. Textos com a mesma estrutura, mesmas transições, mesmo ritmo. Individualmente todos aceitáveis; juntos, sem voz nenhuma.
Isso é perceptível de fora antes de ser perceptível de dentro — o que é a parte perigosa. Duas pessoas comentaram, na mesma semana, que os textos estavam “estranhamente parecidos”.
A correção que funcionou: parar de usar para o que define seu tom. Usar para estruturar, pesquisar e revisar; escrever à mão o que precisa soar como você.
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Semana 4: o que sobrou
No fim, uma lista bem menor que a inicial — e é esse encolhimento que é o resultado do experimento.
Ficou para sempre:
Transcrição e ata de reunião. Nenhuma resistência, ganho imediato, zero risco.
Primeira versão de documento longo. Proposta, plano, relatório. Vencer a página em branco é o ganho real.
Leitura de material extenso. Colar um documento de trinta páginas e conversar sobre ele mudou o que dá para fazer numa tarde.
Revisão crítica do próprio raciocínio. “Que furo tem nisso?” virou hábito, e é o uso mais subestimado.
Pesquisa antes de conversa importante. Trinta minutos viram dois.
Foi abandonado:
E-mail curto. O atrito supera o ganho.
Decisão rápida. Formular a pergunta demora mais que decidir.
Qualquer coisa que precise soar como você.
Tarefa que você faz melhor no automático.
O número honesto
Somando tudo, o ganho real ficou entre cinco e sete horas por semana — bem abaixo do que a primeira semana sugeria e bem acima de zero.
E a lição mais útil não foi sobre tempo. Foi que o ganho se concentra em pouquíssimas tarefas. Quatro ou cinco usos respondem por quase todo o benefício; os outros vinte são ruído que consome atenção.
Usar IA em tudo é a forma mais rápida de descobrir que ela serve para pouca coisa — e que essa pouca coisa vale muito.
O que faria diferente
Não tentaria trinta usos. Escolheria os cinco maiores e cravaria neles desde o primeiro dia.
Mediria antes, o que não foi feito direito — parte dos ganhos aqui é impressão, não medição, e isso é uma limitação honesta deste relato.
E teria decidido antes onde o tempo liberado iria. Sem essa decisão, ele se dissolveu em mais tarefa, que é exatamente o erro que eu descrevo em outros textos e cometi assim mesmo.
O que fazer nesta semana
- Escolha as três tarefas maiores da sua semana. Só as grandes — abaixo de cinco minutos, esqueça.
- Use nelas por duas semanas, mesmo quando parecer mais rápido fazer à mão.
- Não use para o que precisa soar como você. É onde a perda é invisível e cara.
- Cronometre antes. Sem isso você vai ter impressão, não resultado — e impressão da primeira semana é sempre otimista.

