Quase toda carreira que paga bem exige uma de três coisas: diploma caro, muitos anos de experiência, ou sorte. Vendas e growth são as exceções mais acessíveis que existem no Brasil hoje.
Não porque sejam fáceis. Porque o que define quanto você ganha nelas é resultado medível, e resultado não pergunta sua idade.
Um vendedor de 23 anos que bate meta ganha mais que um de 40 que não bate. Isso é raro no mercado de trabalho, e é a coisa mais importante deste texto.
Os números reais de 2026
Vamos direto ao que você quer saber. Levantamentos de mercado deste ano apontam, somando fixo e variável:
SDR — quem faz a prospecção e agenda reuniões. Júnior entre R$ 3.600 e R$ 4.700 por mês. Pleno entre R$ 5.300 e R$ 7.000. Sênior entre R$ 7.500 e R$ 10.500, passando de R$ 11 mil em São Paulo, em empresas de software com ticket alto.
BDR — prospecção ativa, mais dura, e por isso paga um pouco acima. Sênior chegando na faixa de R$ 9.500 a R$ 13.500.
Closer (Account Executive) — quem fecha. Faixa larga, de R$ 8.000 a R$ 25.000, porque a comissão incide sobre o valor da venda. Em contratos acima de cem mil, com comissão entre 5% e 20%, uma venda só muda o mês.
Growth / performance — júnior entre R$ 3.000 e R$ 4.500 nas capitais. Pleno entre R$ 5.000 e R$ 9.000. Sênior na média de R$ 8.000, chegando acima de R$ 18.000 em startups e fintechs.
Duas coisas para reparar nesses números.
Primeiro: a distância entre júnior e sênior é de duas a três vezes, e ela se percorre em três ou quatro anos — não em quinze. Segundo: quem foca em dados e performance ganha de 20% a 40% mais que quem fica no marketing genérico. A especialização é o que move o salário, não o tempo.
Por que essas áreas pagam cedo
Porque o seu trabalho vira número.
Na maioria das profissões, seu chefe avalia você por impressão. Em vendas, ele olha quantas reuniões você marcou e quantos contratos fecharam. Em growth, quanto custou trazer cada cliente e quantos ficaram.
Isso parece pressão, e é. Mas tem um lado que ninguém conta a quem está começando: número te protege. Quem não gosta de você não consegue segurar sua promoção se o seu número está na frente do time. Em carreiras subjetivas, consegue.
Por isso vendas é a área com mais gente jovem ganhando bem sem diploma de faculdade cara. Não é meritocracia perfeita — é só que o placar fica visível.
A porta de entrada real
Quase ninguém começa fechando venda. Começa em SDR ou BDR, e essa é a resposta honesta para “como entro sem experiência”.
O trabalho é: pesquisar empresas que podem comprar, entrar em contato, entender se faz sentido, e agendar reunião para quem fecha. Você não precisa saber negociar contrato. Precisa ser organizado, escrever bem e não desistir na terceira recusa.
É a porta de entrada porque a empresa consegue te treinar rápido e medir você em duas semanas. Baixo risco para ela, o que significa que ela contrata gente sem experiência — e é exatamente essa a vaga que você procura.
De SDR, o caminho normal é virar closer em um a dois anos, ou migrar para growth se você descobrir que gosta mais da parte de dados que da conversa.
Vendas ou growth: qual combina com você
As duas mexem com a mesma coisa — fazer a empresa crescer — por caminhos diferentes.
Vendas é conversa, uma pessoa por vez. Você entende o problema de alguém e mostra se a solução serve. O retorno é imediato: fechou ou não fechou, hoje. Combina com quem gosta de resposta rápida e aguenta ouvir não.
Growth é sistema, muita gente ao mesmo tempo. Você mexe num anúncio, numa página, num fluxo de e-mail, e observa o que acontece com centenas de pessoas. O retorno demora dias ou semanas. Combina com quem gosta de testar hipótese e ler planilha.
Não precisa escolher para sempre. Muita gente boa em growth começou em vendas, e isso é uma vantagem real — quem já ouviu cem clientes ao telefone sabe o que escrever na página de vendas. Quem só viu planilha, não.
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O que separa quem ganha 3 mil de quem ganha 15
Não é talento, e não é ser bom de papo. Depois de olhar bastante gente nessas áreas, o padrão é este:
Volume no começo. Quem faz cem abordagens por semana aprende cinco vezes mais rápido que quem faz vinte. Não é esforço bruto por esforço bruto — é que cada recusa te ensina onde a mensagem quebra, e você precisa de muitas para enxergar o padrão.
Anotar o que funcionou. A maioria manda mensagem, recebe resposta e segue em frente sem registrar nada. Quem anota qual abertura teve resposta e qual morreu constrói, em três meses, um material que nenhum treinamento dá.
Entender o produto de verdade. Vendedor que sabe explicar por que o produto não serve para certo cliente vende muito mais que o que só sabe elogiar. Confiança vem de você ser capaz de dizer “isso não é para você”.
Ficar tempo suficiente. Comissão boa demora. Nos primeiros meses você está preenchendo um funil que só paga depois. Quem troca de empresa a cada seis meses recomeça o funil do zero, para sempre.
A maior parte do dinheiro em vendas está do outro lado dos seis primeiros meses. É por isso que tanta gente passa perto e não chega lá.
O mito de que precisa ser extrovertido
Isso afasta muita gente boa, e está errado.
O estereótipo do vendedor falante existe porque era o que funcionava quando vender era interromper alguém. Hoje, no B2B, quem vende bem faz outra coisa: pesquisa antes, escreve mensagem curta e específica, escuta mais do que fala e some quando não faz sentido.
Nada disso exige extroversão. Exige preparo e disciplina. Gente introvertida costuma ir bem justamente porque escuta melhor e resiste mais à tentação de falar demais.
O que atrapalha de verdade não é ser tímido. É ter medo de incomodar. Isso se resolve com repetição, não com personalidade.
Como a IA muda essa carreira
Ela já mudou, e vale entender de que lado você quer estar.
A parte mecânica está indo embora: pesquisar a empresa antes da reunião, escrever a primeira versão da mensagem, organizar o funil, resumir a conversa. Quem fazia só isso está sendo espremido.
Em compensação, quem usa IA bem faz o trabalho de três pessoas. Trinta minutos de pesquisa antes de uma reunião viram dois. Para quem tem dez reuniões por semana, são cinco horas devolvidas.
A conclusão prática para quem está começando: aprenda a usar IA desde o primeiro dia, não como curiosidade, mas como ferramenta de trabalho. Um SDR júnior que usa IA para pesquisar e personalizar produz como um pleno — e a empresa nota isso na planilha, que é onde ela decide promoção.
O que a IA não faz por você é a conversa difícil, a leitura de quem está do outro lado e a responsabilidade pelo resultado. É onde o salário vai se concentrar.
Como começar sem experiência
O caminho concreto, sem enrolação:
Procure vagas de SDR, BDR ou pré-vendas júnior, principalmente em empresas de software. São as que mais contratam sem experiência e as que melhor treinam.
Antes de se candidatar, faça uma coisa que quase ninguém faz: escolha cinco empresas onde você quer trabalhar, estude o que elas vendem e escreva, para cada uma, como você abordaria um cliente delas. Leve isso na entrevista. Você deixa de ser mais um currículo e vira alguém que já fez o trabalho.
E acompanhe empresas de growth e vendas de perto — como elas escrevem, como abordam, o que publicam. Boa parte do que se aprende nessa área não está em curso nenhum, está em ver de perto.
O que fazer nesta semana
- Decida se você quer conversa (vendas) ou sistema (growth). Não precisa ser definitivo, precisa ser um começo.
- Liste dez empresas de tecnologia que você admira e veja se têm vaga de SDR ou pré-vendas.
- Escolha cinco delas e escreva como você abordaria um cliente de cada uma. Uma página. Isso é o seu portfólio.
- Comece a usar IA para pesquisar empresa antes de qualquer conversa. Chegar preparado é o que mais te diferencia no início.
- Se conseguir a vaga, combine consigo mesmo um prazo mínimo de um ano. Antes disso, o dinheiro bom ainda não apareceu.


